quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

"...com os olhos fechados eu vejo que o mundo se abre. A chuva guarda uma sobra das minhas pesadas núvens que escorrendo nos sapatos molha a roupa na cesta."


As cifras do banco central cantam para mim a música dos incompetentes. Revirar a cova do professor do professor até que sejamos todos adimiradores da demência. E nunca o pensamento humano foi tão visceral, naturalista e orgânico. Um grande bolo fecal, e essa ode aos coprófagos estilísticos reservados à ressurreição da boa-vontade empresarial. Cante e dance comigo, compre núvens, compre sonhos, pague a prestação com cuspe e catarro. Hoje serei borboleta de pedra, hoje serei o herói do meu gibi, serei o auto-didata da demência.

Sim o ano é longamente curto, os dias são máquinas de fazer dias.

Os números máquinas de fazer contas.

As cabeças são máquinas de fazer máquinas de fazer cabeças.

E isso é o certo, o esperado e o incentivado. Sim, somos naturalistas. Vamos ao cinema, somos consumidores, vamos ao mercado, somos transeuntes, vamos até o canteiro central da avenida, no passeio público, no ônibus. Vamos transitar pelas vielas do formigueiro, vamos ao maracanã, vamos engolir a massa fecal do pensamento empreendedor. Vamos bater palmas ao estupro concentido, a pedofilia intelectual, ao fim do mundo, aos pensamentos retrógrados e inventivos da filosofia cristã.

e principalmente, fazer máquinas de fazer cabeças.

É errado querer explodir a cidade? É errado querer explodir o estado?

Porque em meio aos contos de fadas se escondem os caminhos tortos da jornada. ter consciência e persistência. Ter fé e administrar a tempestade. Se durante os sonhos os olhos olham para dentro mas enxergam o que está fora, e esse ruído a impregnar os ouvidos. O cheiro de lavanda e desodorante a corroer nossa virtude. Não há virtude.

Esqueçam, não há virtude. Os olhos servem pra cheirar carniça, os ouvidos para ver silêncio, o nariz para tocar a morte e a língua para falar absurdos. Hoje estou certo de que meu canil é essa cidade molhada.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

eu assombro a sombra do que sou

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Deito meus olhos longos sobre a noite
espero o silêncio de sentir aqueles lábios outra vez
hoje minha música suspende-se no ar até sumir
me entrego aos séculos
abro a janela pros insetos
deito meus cabelos sobre os panos do sofá
sem o silêncio daquele beijo minha boca se cala
sem aquele silêncio pra encher meus ouvidos
sem aquele beijo pra calar minha noite
e no fim quis fazer enfim o mais lindo poema
mas veio a chuva e tudo que restou foi o borrão da tinta

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Respingo minha alegria pela pia
desenho as letras num papel imaginário
terça-feira é uma criança animada
canta, vai!
(espanto em silêncio a mariposa que teima em morar acima da minha cama)
as palavras tem cores transitórias
dependem da voz que diz

Respingo minha alegria pela pia
alegria demais não cabe na louça
alegria demais não importa para a pátria
a salada de batata, o purê de abóbora
o restinho do queijo mofado e caro que não aprecio
Eu sei, sou a sobra dos meus pensamentos
retirando as pequenas palavras que explicariam o que sou
a soma simples dos momentos que vivi
os medos que somei na infancia,
os medos que somei na juventude,
os medos que somarei quando for velho

Respingo minha alegria pela pia,
e cada gota me alivia
alegria demais cega

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

"e as noites capitulam feito fantoches
é tarde e os olhos teimam
eu sou janeiro, não deixe que meus olhos saibam
eu sou janeiro
e tudo que me move através da madrugada é janeiro
já que não fumo nem bebo café"

o pequeno besouro pousou nas cordas violão
pequeno e gordo
soando um lá
helicopterando o ambiente

terça-feira, 13 de outubro de 2009

"eu que não sou nada sou o cheiro da chuva pois o cheiro da chuva não é nada"

Vamos,
O céu é velho ainda.
Meus olhos e os seus,
no céu,
e esse vento branco,
com cheiro de pedra quente quando molha.
Esse mundo cheio de vento.
Esse sopro uivando pela janela da sala.

Vamos,
o relógio parou ontem a tarde.
Já não importa dia ou horário,
rotação invertida,
pão com geléia de jaboticaba,
frio, calor,
suspense ou bicicleta.
Quando acordar procure por mim

Vamos,
te espero na mesa do café
comendo sonhos desalimentados.
(o mundo não deveria ser sonhado)
É pedra e madeira de areia e água,
é regra, segredo e a vaga lembrança do que foi.
Pra ser há de ter sido
e pra ser novo há de ter sido esquecido

Vamos,
que as palavras são idéias trancadas
e o papel essa grande mentira.
Carcereiro da imaginação.
Prisão de dois lados.

Vamos de encontro ao silêncio,
ao encontro do nada,
ao sabor do vento branco com cheiro de pedra molhada.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

¡!i

"compre núvens, compre sonhos
cante e descasque um soneto pra mim
dance em volta do mundo, dance
sem querer sonhar"

Eu era o espelho de mim mesmo que me olhava paralizado. Cinco pernas muito longas andavam pelos corredores da escola onde estudei no primário e só se podia ver até a entrada do joelho, eram pernas finas e brancas, vestidas por meias gordas e vermelhas como numa caricatura. De súbito aparece na porta ao fim do corredor uma senhora de óculos que se parecia muito com a velha surda da "praça é nossa" exceto pelo batom borrado. Ela me diz pra que eu acalme minhas idéias e que é normal sentir-se confuso nessa idade abstrata. Eu sou um mosquito zombando do mundo, e o mundo é a mão que esmaga o mosquito. A velha tem um mata-moscas na mão, minha ilusão é sentir seguro pois o mata-moscas não mataria mosquitos. Ledo engano.
Quando lembrei da época de garoto quando contavam-se histórias de terror no pátio e derrepente o colégio transformava-se numa dimensão própria, e que quando se vê a propria morte em sonho nunca mais se acorda, esse era o motivo do famoso morrer dormindo
Mas nada disso importava mais, óculos, papagaio, rinoceronte. As portas da imaginação eram um rio caudaloso e poluído no passado e hoje é uma valeta de favela. Respire fundo, sinta o podre do vento, eramos mosquitos e o sangue que nos alimentou apodreceu.
Por sorte talvez, mérito do acaso produtivo pela manhã chegaram alguns doces na porta numa cesta de um padeiro transeunte, por força do destino era improvável sua admissão mas 3 reais deram um bom café da manhã com direito a pão doce colegial com aquela deliciosa camada de açúcar entre as tiras de creme.
a cidade se faz de luzes que apagam ao nascer do dia

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

é meu peito que dói
sem motivo maior do que o mundo
a cada sopro ou espirro

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

A janela é a porta do vento

aproveitando o destrancar da vida aparece essa vontade imensa de qualquer coisa
e a janela, a pobre janela,
que de viva só tem do vidro pra fora,
é o olho semi-aberto e semi-fechado da casa
é a porta do vento

Mas essa vontade imensa não está presa, veja bem,
ela é filhote do vidro escancarado
um desejo que nasce do ar livre
e deseja apenas permanecer assim
preso por sua própria vontade
amarrado `a liberdade de se estar envolto pelo próprio jardim

e como cresceu minha barba
tanto que a ponta do meu bigode tocou o fim do mundo
e lá vez em quando faz frio
tanto quanto no frezzer
vez em quando calor como no forno
sendo o mundo minha casa
onde moro e habito
sendo a cozinha uma barriga
onde nasci e onde me alimento
sendo o mundo minha cabeça
onde permaneço em vôo suspenso
como um beija-flor, um helicóptero ou jogador de futebol

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

venta na janela fora do meu peito
e o balançar das plantas assusta o cachorro
venta forte do lado de fora de mim
e ainda assim sinto o soprar egoísta desse coração

a noite avança em meus olhos pesados
(como se todas as madrugadas fossem a mesma madrugada)
e o vento ainda aqui, na garganta
me lembro de qualquer coisa
desço pra pegar um biscoito
não há nada dentro do vento
não há nada dentro da noite

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

De que são feitos os sonhos II

No pensamento mudo da pele
onde você está ou não está
cruzo o caminho onde a vida cruza a vida
desenho de rabisco solto,
simplesmente, sendo nós
quando a palavra perde o signnificado
quando a lua brilha como brilhou ontem
como quando o mundo cabe numa caixinha
e nós, a sós, vendo a vida escorregando
espreguiçando a semana até o descanso merecido
madrugando a quinta-feira atrás de me sentir em você
falando com seu travesseiro baixinho
e o fio de cabelo que sobrou por aí
mas não tenho mais nada a declarar
a falta de palavras é o melhor assunto
(que te digo com os olhos que o mundo é louco
e te digo com os olhos que eu sou louco
e com os olhos te falo que sua loucura é linda)
deixo apenas soar um silêncio
que suspenso no tempo e no espaço tenho seu rosto comigo quando me acordo no teu peito
quando beijo sua boca
quando me lembro do seu mundo
quando me esqueço dentro do seu mundo
e rindo volto a criança que nunca matei dentro de mim
me perdendo em teu cabelo
rodando em teu perfume
sorrindo teu sorriso
te encontro nesse pensamento mudo
que escapole da cabeça sem direção
e essa sede imensa de te ter comigo
e saber que teu caminho é esse aqui
sem temer certeza ou percurso
cometendo os mesmos erros e encantos do universo
sendo mulher e homem
sendo você e eu

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

se fecho os olhos pra esconder o que todo mundo sabe
como poderei sorrir

(quando ninguém pode saber aquilo que todo mundo sempre viu que amanhã será assim
como ontem sempre foi)

e o pouco que nos resta ainda está pela metade mas
não compro a briga de quem
entrega o ouro pro bandido
nem me coço com o mosquito
das possibilidades
e se atiro em nome da lei
sei que ela também vai atirar em mim
e só quando morrer
vou ser enfim quem sempre fui
só quando eu morrer
serei aquele que um dia

eu não planejo a urbanização
não engulo esse sapo feio
que me empurram pela guela
e ainda espero muito paciente
pela minha vez na fila do banco
os cães rastejam para o dono e latem pras visitas

seria?

talvez um dia no futuro
quando o jornal de amanha for historia do passado
será que num outro jornal não muito diferente desse
vai surgir a mesma noticia que ja sabermos sempre vem
talvez entao alguem venha dizer
quem sabe um dia tudo isso vai cair
e sera que a velha bandeira hasteada no palacio
ganhara um desenho novo e novas cores pra falar qualquer besteira
e ainda assim apesar da burocracia e da politicagem
virá um policial me dizendo o que sonhar ou o que comer
ou talvez um médico psquiatra
me chamar de ponto fora da curva
e anotar no documento de identidade
os algarismos que dizem quem sou e fui

terça-feira, 1 de setembro de 2009

De que são feitos os sonhos?

As perguntas eram tudo que poderia querer
serpenteando no rabo da cobra do futuro
as respostas de açúcar,
o mundo escorrendo pelos sapatos,
Essa flor singela devorando o universo
e o céu calado,

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

quando acordo depois do meu lençol
e seu amarelo de mar e sonho
entre os vidros da janela
barulho de tempo passando
seu rosto rodando minha lembrança
fora do mar,
fora desse lençol amarerlo
como num sonho
e derrepente
sou de volta meu segredo
e acordo derrepente

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

a mesa ensolarada de Vítima Teixeira

pois crime é ser obrigado a manter-se dentro da lei
e o que era doce amargou
e da velha casca de ferida apenas resta uma lembrança abóbora
que os sons das palavras são a lembrança adjunta daquilo que se tem
e ainda há espaço para correr entre os arbustos
pouco, é verdade
mas ainda há como ser criança,
mesmo que vagamente
pelas beiradas
atrás da máscara de profissional competente

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Eu sou como os ponteiros do relógio
e não tenho tempo de olhar pra trás
e sigo adiante sem perder o pulso
dentro da engrenagem que me faz ir frente
passo a passo, sempre em frente
pelas pedras do destino

e vou como os ponteiros do relógio
de hora em hora traço meu caminho
em cada minuto outra memória
segundo após segundo do destino eu não me iludo
não me engano, todo mundo está sozinho, e vem também
pelas pedras do destino

mas rodando pela face do relógio
sou ponteiro desgarrado
e quando perco meu futuro
não apago meu passado
e não sei se o destino permanece inalterado
posso então soar estranho
quem me diz equivocado
mas o tempo não tem pernas
e nunca vai ser enjaulado

eu vou pelos ponteiros do relógio
não tenho medo do que ele me traz
e do pouco que carrego em minhas costas
sei que nada disso me acompanhará
quando enfim vier a hora que o tempo me dirá
vá embora e não volte nunca mais

mas rodando pela face do relógio
sou ponteiro desgarrado
e quando perco meu futuro
não apago meu passado
e não sei se o destino permanece inalterado
posso então soar estranho
quem me diz equivocado
mas o tempo não tem face nem tem porte
e nasceu de um suspiro suspirado pela morte
o que morre e não se vê
e não foge da verdade
nem caminha pela noite da inveja

e se nasce é somente por nascer
e se resiste é esquecido
ou talvez ignorado

e se esconde entre as brechas da mentira
entre muros de presídios
entre prédios abandonados

o que mora nos jardins ensolarados
mas tem data de morrer
e ninguém chora seus pecados

e não quer a avareza da justiça
nem a faca da vingança
nem a glória do soldado